terça-feira, 11 de abril de 2017

Dimensões da Adaptação ao Aquecimento Global


A afirmação “Aquecimento Global: Mitigação é Global, Adaptação é Local” aparece muitas vezes, quando menos de forma implícita nos discursos sobre o enfrentamento do Aquecimento Global. Que os efeitos da ofensa ao clima na forma de emissão antrópica de substâncias de efeito estufa sejam de amplitude global, não há dúvida. Afetam áreas geográficas e suas populações de forma desigual, é verdade, mas afetam a todos os presentes e os que virão nas próximas décadas e nos próximos séculos. A Mitigação, ou seja, ações que propiciem redução da emissão de gases estufa e/ou a absorção de gases estufa da atmosfera, é uma tarefa global, tal como global são os efeitos da emissão de substâncias de efeito estufa.

O Aquecimento Global, a elevação da temperatura da atmosfera próxima à superfície terrestre é global mas, fixado um tipo de medição, como por exemplo, a temperatura média mínima nos últimos dez anos, a elevação da temperatura se apresenta de forma diferente em diferentes localidades. Tal como a inflação em uma economia é a subida geral de preços, mas num determinado período cada preço sobe com elevações diferentes, alguns poucos preços até apresentando redução ou permanecendo constantes, enquanto todos os outros sobem. 

A elevação da temperatura é variada entre diferentes localidades. Mais variados ainda são os efeitos, como modificação do ritmo de precipitações, da ocorrência de efeitos climáticos extremos e suas consequências, também variadas para cada dado tipo e intensidade de evento extremo, produzindo ainda mais diferentes vulnerabilidades face às diferentes configurações geográficas e de ocupação socioeconômica. Os efeitos, enfim, se pronunciam sempre em determinadas áreas, com diferentes temporalidades e intensidades. Os remédios para a redução ou superação dos danos são aplicados nas áreas onde os efeitos negativos ocorreram ou são previstos. Cada tipo de evento negativo tem, para cada área geográfica, uma probabilidade de ocorrência (em cada período de tempo adequado para o evento) e uma ou mais soluções.

As áreas de ocorrência de um evento negativo, requerendo ações de prevenção e de reparação, podem estar restritas a área interna a uma unidade produtiva e podem ter na unidade produtiva os recursos para as ações requeridas. Podem ser internas a um município e pode ele ter os meios para prevenção e reparação. Podem ser restritas a um estado e pode ele resolver com seus meios o que seja necessário. Podem ser internas a uma nação e ela ser autosuficente para as ações necessárias. Mas, há situações em que a área onde se dá o evento negativo extrapola os limites de fazendas, municípios, estados, nações. Com maior frequência ainda os recursos para as intervenções necessárias extrapolam os disponíveis pelos agentes a quem confere a reação relativa a eventos negativos de origem climática. Basta olhar para eventos como os incêndios florestais na Rússia, nos verões de 2010 e 2011, tão extensos foi que se refletiram nos indicadores da produção agropecuária russa; como o incêndio florestal do Chile em 2017, o maior já ocorrido no país, the greatest forest disaster”, para combater o qual houve ajuda de países vizinhos latinoamericanos. Enchentes provocados por chuvas monumentais romperam com os registros históricos no Perú, neste ano de 2017. A ajuda internacional, de países vizinhos, foi acionada e colaborou com o suprimento de alimentos e água a populações que tiveram o acesso cortado pela destruição de pontes e de estradas. Em deslizamentos de terra na Colombia, provocados pela continuidade de precipitações “hsitóricas” ainda neste 2017, morreram mais de duas centenas de pessoas. Seria interessante uma imediata ajuda internacional de especialistas em remoção de material para salvamento de soterrados. Cada hora passada conta muito contra a probabilidade de encontrar soterrados com vida e é muito pouco provável que haja competência em remoção em quantitades suficiente em cada estado ou mesmo nação de pequeno porte. A estruturação de capacidade de disparar imediata ajuda internacional é uma medida de Adaptação a tempos onde tais eventos catastróficos tendem a se repetir com maior frequência do que nos registros históricos. Isto caberia a associações de nações, como a UNASUL, a OEA, a ONU.

A Adaptação envolve diferentes medidas e ações, desde da ordem de estabelecimento de políticas públicas nacionais, estaduais e municipais, políticas corporativas, como da ordem dos diversos ângulos e aspectos de execução dessas políticas. Pode-se destacar nas áreas urbanas as questões de deslizamento de terras inclinadas; de áreas alagáveis com política de uso urbano que reduz os prejuízos, de sistema de drenagem adequado às precipitações extremas, rotas de fugas para aprisionados nas enchentes repentinas; de temperatura e sua relação com meios para evitar altos níveis de ilhas de calor. Pode-se relacionar nas áreas rurais o zoneamento orientando a distribuição geográfica da produção, o sistema de informação climática permitindo as mais rápidas possíveis intervenções dos agricultores, o sistema de pesquisa agropecuária desenvolvendo cultivares mais adequados aos novos climas, assim como novos sistemas de produção e de manejo de culturas e de manejo de solo e água. Sistemas de apoio a inovações sociais dirigidas à Adaptação podem concorrer para eficiente difusão de tecnologias agrícolas.
As dimensões da Adaptação crescem quando o estabelecimento de condições favoráveis à formulação de ações de prevenção e reparação de efeitos nocivos do Aquecimento Global são adicionados a ações de Adaptação no sentido restrito. Entre o estabelecimento de condições favoráveis está o avanço na qualidade da educação populacional. Quanto mais elevado o nível da educação populacional mais alto a capacidade de apreender o conteúdo de informes técnicos e mais rápido e mais completo o domínio de inovações, quer tecnológicas, quer sociais, tais como as inovações voltadas à Adaptação ao Aquecimento Global. E a educação populacional, em seu ângulo de qualidade, envolve todos os municípios, estados e o próprio governo central de cada país.

O processo de Adaptação às Mudanças Climáticas abrange os mais variados aspectos da vida socioeconomica das nações. Não se deve esperar que seja liderado por empresas privadas, que visam o lucro numa dimensão de tempo mais curto do que o das ocorrências, que abrangem extensões mais longas. Deve ser coordenado entre os diversos governos e entre os diversos agentes públicos. É um processo complexo. É difícil que seja levado em conta a contento, pelo menos no atual estágio dos seus efeitos, principalmente por se referir a um fenômeno a que o Homem nunca foi antes exposto e que torna de pouco valor preditivo as probabilidades de eventos geradas pelas séries históricas existentes, não havendo experiência acumulada sobre eles. A situação de se estar frente a algo inteiramente novo para a humanidade leva a Adaptação a tender ser mais difícil. Um dos componentes da dificuldade se encontra na praticamente irremovível, nas democracias, da natural sucssão de radicalmente opostos pontos de vista de governantes sobre o Aquecimento Global e suas decorrentes Mudanças Climáticas, ou seja, sobre as causas das necessidades de Adaptação. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Alimentação animal/Convivência com a seca/Adaptação ao Aquecimento Global

Criadores convivem com períodos de estiagens prolongadas que, com o avançar das mudanças climáticas se prometem, em média, mais intensas e mais extensas, tanto em área geográfica quanto em duração temporal. Como uma das formas de Adaptação os pesquisadores oferecem uma nova tecnologia para alimentar gado na estiagem. São os tabletes nutritivos ou blocos multinutricionais. Consistem numa mistura de melaço, uréia pecuária, sal comum, minerais, bagaço de cana, juntamente com folhas encontradas localmente, aceitas pelo gado. 

Desenvolvidos na Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (Emepa), os tabletes fornecem nutrientes essenciais como proteína, energia e minerais durante o período em que as forrageiras estão com baixa qualidade. Evitam o decaimento do ecossistema ruminal para a multiplicação microbiana, assim mantendo a capacidade de digestão das fibras, as quais são o principal componente da forragem durante épocas de estiagem. 

Os tabletes podem ser produzidos pelos próprios criadores que contem com a possibilidade de adquirirem melaço e bagaço de cana (componente volumoso), produzidos pela indústria canavieira, os componentes químicos e folhagem que os ruminantes toleram comer.

No presente, parte interiorana do semiárido do Nordeste do Brasil conta com distâncias que permitem acesso, por custos de transporte aceitáveis, ao melaço e bagaço produzidos pela indústria canavieira em áreas litorâneas. A tendência a substituir parcialmente a produção de cana pela criação de bovinos na área hoje dedicada à cultura canavieira pode reduzir a oferta de melaço e bagaço até agora disponíveis a criadores do semiárido nos tempos de secas. A redução desta oferta diminui a possibilidade de formação dos tabletes desenvolvidos na Emepa, acima citada. A redução desta eferta é o contrário de uma situação de Adaptação. É uma desadaptação.

 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Um problema para a Adaptação: seguros e resseguros










                                                  Referência: O Estado de São Paulo, 13 de
                                                                     Março de 2017. Seção B
                                                                     (Economia), p.2.
                                                   Obs.: Trecho publicado ipsis litteris no
                                                            endereço eletrônico do link acima.


Correta está a lógica de expansão das atividades de resseguro sob a direção do CEO Bruno Freire em não investir em resseguros em áreas onde o risco de catástrofes naturais está aumentado. É uma estratégia que expressa um sinal de responsabilidade para com o seu negócio, para com os acionistas da empresa.


Assim, o Chile e as nações do Caribe ficam desabrigadas exatamente por serem as que mais necessitam de seguros. O Aquecimento Global que provoca o aumento da frequência e da intensidade de catástrofes naturais, e por conta disto, maior necessidade de seguros, provoca, por compreensivas razões, maior dificuldade na área de seguros por conta de instituições provadas no marco legal atual.

A maior dificuldade para fazer seguros torna mais difícil a recuperação dos atingidos pelos desastres naturais. Muitos dos atingidos não poderão se recuperar. Sofrem com isto os atingidos, sofre com isto o ambiente econômico social. Os vasos comunicantes dos sistemas econômicos distribui sobre todos os malefícios, embora altamente concentrados nos que não possam se recuperar.

Veja o que está acontecendo na úmida Zona da Mata do leste do que foi o grande produtor de açucar de cana na história do Brasil. Há uma Zona de Mata Norte, menos chuvosa, com média anual de 1.600 mm (63 in), e uma Zona da Mata Sul, mais chuvosa, com média anual de 1.800 mm (71 in). Pois a atual grande seca plurianual, que vem se arrastando, sendo este o quinto ano consecutivo, nos três primeiros anos produziu prejuízo de mais de 33 bilhões de dólares (33 billion dollars) em toda a área atingida.  Na Zona da Mata Sul, que desconhecia a seca com a intensidade da atual, houve uma perda na cana de açucar, de 22% do peso previsto. A perda na Mata Norte é compreensivamente maior. A atividade multicentenária, o cultivo da cana de açucar, começa a perder espaço para a criação de gado, que necessita menos água. Três gerações de plantadores nunca tinham presenciado nada igual. Cria-se um ambiente desfavorável ao investimento, com repercussões negativas sobre a capacidade de Adaptação.

Está posto o problema. É importante que ele seja reconhecido como problema. A primeira etapa na solução de um problema é reconhecê-lo como tal.

A solução é importante que haja. Várias soluções podem ser dadas, muitas vezes com diferentes aplicações mais adequadas em diferentes situações.  
 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Gado Adaptado ao Semiárido

avanços na direção do desenvolvimento de gado (gado vacum) resistente às condições climáticas que caracterizam as regiões semiáridas.

Para criações de pequenos produtores e de produtores familiares já foi desenvolvida a raça Sindi, de bovinos adequados à pecuária leiteira (TEODORO; VERNEQUE; MARTINEZ, 2012). Trata-se de raça originária dos trópicos paquistaneses, adaptada às condições de áreas semi-áridas, capaz de viver e produzir com aceitável eficiência econômica, pelo menos num primeiro estágio de agravamento das condições locais trazido pelo processo de mudanças climáticas. A raça tem pelagem de cor avermelhada, ideal para as regiões tropicais e sub-tropicais (TEODORO; VERNEQUE; MARTINEZ, 2012); o seu pequeno porte é condutor a melhor aproveitamento por área; tem boa eficiência reprodutiva e principalmente boa capacidade de produção de leite, tanto em quantidade como em qualidade; a sua adaptabilidade às condições adversas de clima e de manejo, principalmente alimentar, nas condições de semiárido, tem sido atributos explorados, no semiárido do Nordeste do Brasil, em cruzamentos com raças taurinas, para a obtenção de animais de pequeno porte, produtivos, resistentes, tais como recomendados para explorações leiteiras típicas da agricultura familiar e da pequena produção, de modo geral.

Gado de maior porte, o Guzerá, por seu turno, vem sendo objeto de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa para torná-lo mais adequado, do ponto de vista econômico, às condições do semiárido, como parte do Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite. O programa conta com o apoio da Associação Brasileira de Criadores de Zebu e da Associação de Criadores de Guzerá do Brasil, numa estreita parceria público-privada, que tem envolvido os Ministérios da Agricultura e da Ciência e Tecnologia, Universidades, Empresas estaduais de pesquisa e Centrais de sêmen e transferência de embriões (EMBRAPA,2013 CNPGL). Trata-se de um esforço que gera resultados de Adaptação dirigidos aos grandes criadores.

 [Outros conhecimentos para convivência e adaptação em

Na região equatorial: Convivência com a Seca = Adaptação ao Aquecimento Global]

De:
DIAS, Adriano; MEDEIROS, Carolina 
(Consultores:  MELO,  Lúcia; SUASSUNA, João; TÁVORA, Luciana; WANDERLEY, Múcio)
Convivência com a Seca e Adaptação - realidade e pesquisa

Relatório Parcial da Pesquisa  Adaptação ao Aquecimento Global:
uma visão sobre a pesquisa agropecuária no Norte/Nordeste
Coordenação de Estudos em Ciência e Tecnologia - CECT/Fundação Joaquim Nabuco  www.fundaj.gov.br.    Recife, 2014

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Um instrumento de Adaptação ao Aquecimento Global - o Esgoto condominial



As Mudanças Climáticas vão avançando. Caminham na direção de contribuir negativamente ao Homem por meio da expansão dos vetores de doenças. A água é um meio especialmente favorável aos microorganismos patógenos e vai se tornando mais e mais favorável com o aumento das temperaturas médias. E a água usaUm inovativo sistema de coleta de esgoto comoda, o esgoto sanitário, é um meio repleto de elementos patógenos, que ganham condição de aumentar a propagação com o aumento da temperatura. 

Uma forma de adaptação, se contrapondo a este efeito do Aquecimento Global é expandir o esgotamento sanitário para torná-lo universal no atendimento a cada grupamento humano. O fator limitante é o relativamente alto custo dos sistemas convencionais de coleta do esgoto. Leva a que haja um grande déficit no atendimento da coleta, comparativamente ao abastecimento d'agua. O déficit é concentrado nas áreas mais pobres. É concentrado nas áreas que mais intensamente sofrem os efeitos negativos do aquecimento.

Uma grande contribuição para que o atendimento da coleta se torne universal poderia vir de uma tecnologia que apresentasse custos substancialmente mais baixos para a coleta de esgoto sanitário. Pois esta tecnologia já existe. É o sistema condominial de coleta de esgoto sanitário, concebido pelo Engenheiro José Carlos Melo, em esforço para universalizar o esgotamento sanitário em Natal, capital do não rico estado do Rio Grande do Norte, Brasil. Reduz os custos do sistema de coleta a cerca da metade. O sistema condominial está baseado na junção de unidades usuárias de um mesmo quarteirão para um único acesso à rede pública. A unidade de atendimento deixa de ser um consumidor e passa a ser um grupo de consumidores.  É um sistema muito flexível. Dispensa a caríssima rede pública (cara por metro linear, pela sua bitola e pela sua profundidade média) de passar em todas as ruas, formando um elo ao redor de cada quarteirão. O ovo de Colombo para reduzir o custo da coleta consistiu em substituir a malha em torno de todos os quarteirões por uma rede de baixo custo ao redor de cada quarteirão. A rede interna a um quarteirão usa canalização de pequeno diâmetro, 10 a 15 cm (4 a 6 in) e baixa profundidade, de 30 a 90 cm (12 a 36 in). A rede pública, de grande diâmetro e profundidade de até 6m (20 feet) só precisa passar no ponto de cota mais baixa do quarteirão para receber a ligação da rede condominial local do quarteirão. Assim, reduz-se substancialmente o tamanho da rede pública.

A rede de coleta condominial pode correr a canalização no fundo dos lotes. Nesta configuração, gera queixumes contra este sistema de menor custo pela necessidade de acesso ao interior dos lotes para trabalhos de manutenção. Pode passar nos jardins, na frente das casas. Mas, evitando qualquer problema com a parte interna das propriedades privadas, pode correr sob a calçada, que é pública.

Há a queixa de que ocorrem com mais frequência, na rede condominial, as necessidades de intervenção para manutenção, por problemas de entupimento mais frequentes do que com o uso do sistema convencional. Mas, vejamos, não há ao que se saiba, muitas reclamações no sistema de esgotamento de edifícios com, digamos, 6 apartamentos ou 20 deles. Por que haveria de ser problemática a junção de 6 ou 20 casas, unidas por um ramal tal como os apartamentos nos edifícios?

O sistema de esgotamento condominial representa, pelo mais baixo custo, uma contribuição a viabilizar a desejada universalização do atendimento da coleta de esgoto sanitário, reduzindo a exposição das comunidades às doenças veículadas via água. Basta que seja realmente bem construído e bem usado. Seu uso é uma solução para as comunidades de baixa renda. Mas, não é restrito a elas. Também pode substituir a implantação de sistema convencional mesmo em expansões urbanas de alta renda que podem arcar com ele. Para estas, todavia, o sistema condominial só será usado pelos que preferirem ter um menor custo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A dimensão da Seca





A Seca é um dos eventos extremos a se tornar mais frequente e mais intenso ao longo do avanço do processo do Aquecimento Global. Daí a importância de que sejam conhecidas, por todos, a extensão e intensidade das dimensões da Seca. Tal conhecimento dá a idéia sobre os custos da não adaptação a este fenômeno, que se espraia em muitas partes do nosso planeta e tende a se tornar mais frequente e mais intenso como desastre natural.

A Seca é bem conhecida pelos habitantes do semiárido brasileiro. Ao longo da História   praticamente não há habitante do semiárido que na sua vida não tenha sido exposto algumas vezes ao fenômeno da seca e a pelo menos a uma das terríveis grandes secas (excluidos, obviamente os que tenham tido morte prematura). E é fortemente presente na literatura nacional brasileira (SCOVILLE,2014). Tudo isto antes que o fenômeno venha a ser intensificado pelo Aquecimento Global.

A primeira notícia sobre seca foi descrita pelo padre Fernão Cardin, referindo-se à seca de 1583-1585 (Isto mesmo, não é erro de digitação, foi há quatro séculos e meio atrás. A princípio o fenômeno passaria despercebido pelos portugueses, pois começaram a ocupação pelo litoral do Nordeste, uma região úmida, hoje chamada Zona da Mata, que se estende até cerca de 5 dezenas de quilômetros (três dezenas de milhas) para o oeste das praias. Só notariam as secas quando na expansão da invasão, se adentraram para oeste da Zona da Mata. Nesta primeira seca notada pelos portugueses chegaram aos territórios por eles conquistados cerca de cinco mil índios, expulsos do semiárido pela brutalidade do fenômeno atmosférico (CEPED. 2015).

Século e meio depois a seca volta a ser objeto de atenção e de uma forma tão pouco racional que evoca uma situação de desespero:



A irracionalidade do pedido vem por conta do destino que teriam os escravos que viessem substituir os que morreram de fome. Na medida em que a causa das mortes, a seca, não tinha sido removida, os novos escravos estariam expostos à mesma condição que tinha causado as mortes. Iriam somente ampliar a lista dos mortos.

A sequência de secas, presente na forma extrema em todos os séculos da história do Nordeste (BARRETO, 2009) gera “uma triste história em que a morte rondou diuturnamente a vida dos sertanejos”(VILLA, 2000, p.13), bastando considerar que nos séculos XIX e XX as vítimas fatais foram em torno de três milhões de pessoas, um número assaz elevado, considerando a baixa densidade populacional do semiárido ao longo deste período. Uma única seca, a de 1877-1879, sem dúvida uma das mais terríveis, teria dizimado cerca de 4% da populaçãonordestina (MARTINEZ, 2002) (Note-se que a população exposta à seca era bem menor do que a população da região litorânea. O percentual de mortos na região interiorana, exposta à seca, foi muitas vezes maior.).

A seca severa que atingiu o Nordeste de 2012 a 2016, afetando uma população de 33,4 milhões de pessoas, só entre 2013 e 2015 causou um prejuízo de R$ 103,5 bilhões (cerca de 30 bilhões de dólares). Foi o levantamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios - CNM, com dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres.
Note-se que não são computados os custos humanos, como os representados pela subnutrição e seus efeitos e pelos efeitos do consumo de água imprópria.

Todos os desastres naturais do país, também entre 2013 e 2015, causaram prejuízo de R$ 173,5 bilhões. Ou seja, 60% do prejuízo no Brasil com todos os eventos extremos se concentraram pela falta de chuva no Nordeste, numa região onde a água é um fator limitante ao desenvolvimento (SUASSUNA, 2009).

O levantamento aponta que todos os desastres naturais do país, entre 2013 e 2015, causaram prejuízo de R$ 173,5 bilhões. Ou seja, 59,7% do prejuízo no Brasil com todos os eventos extremos se concentraram na falta seca no Nordeste, o qual representa apenas 18,9% da área do país (MADEIRO, 2016).

Os prejuízos computados envolvem grande parte da safra, perda de grande parte do rebanho, especialmente de bovinos, perda de pastagens. Mas há também o uso predatório de plantas da caatinga para alimentação animal e a morte de espécies nativas, adicionais aos custo humanos.

Diferentemente das secas históricas de proporções épicas nos séculos anteriores, nesta  atual não se observou o êxodo em massa da população, nem houve morte de pessoas por fome e sede. Isso se deve em parte às políticas assistenciais como o Bolsa Família. O sistema viário e uso de caminhões para transporte de água viabilizam a distribuição de água para necessidades vitais.



Referências

BARRETO, Pedro Henrique (2009). História - Seca, fenômeno secular na vida dos nordestinos. Desafios do Desenvolvimento. Brasília: 6(48). Disponível em: http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1214:reportagens-materias&Itemid=39. Acesso em: 02.fev.2017.

CAMPOS, José Nilson B. Secas e políticas públicas no semiárido: ideias, pensadores e períodos. Estudos avançados 28 (82) 2014.

Centro de Estudos e Pesquisas em Engenharia e Defesa Civil - CEPED (2015).
1583/2012: Histórico de Secas no Nordeste do Brasil. Disponível em:

MARTINEZ, Paulo Henrique (2002). Resenha de VILLA, Marco Antonio (2000). Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX. São Paulo: Ática. Revista Brasileira de História, 22(43):251-254. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbh/v22n43/10922.pdf. Acesso em: 06.fev.2017.
Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, Série Debates n° 24.

MADEIRO, Carlos (2016). Em 3 anos, seca severa no Nordeste causa prejuízo de R$ 103,5 bilhões. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/11/23/em-3-anos-seca-severa-no-nordeste-causa-prejuizo-de-r-1035-bilhoes.htm. Acesso em: 06.fev.2017.

SCOVILLE, André Luiz Martins Lopez de (2011). Literatura das Secas: Ficção e História. Curitiba: UFPR. [Tese de doutorado]. Disponível em: thtp://acervodigitJal.ufpr.br/bitstream/handle/1884/26633/Andre%20Scoville%20-%20Tese%20Literatura%20das%20secas%20-%20versao%20final.pdf?sequence=1. Acesso em: 03.fev.2017


SUASSUNA, João (2002) . Água - Um Fator Limitante para o Desenvolvimento do Nordeste? In: HOFEISTER, Wilhelm. Água e Desenvolvimento Sustentável no Semi-Árido. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, Série Debates n° 24, p.117-130. Disponível em: http://www.kas.de/wf/doc/kas_11769-544-5-30.pdf. Acesso em: 03.fev.2017

VILLA, Marco Antonio (2000). Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX. São Paulo: Ática.

Revisto em 24.04.2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Adaptação ao Aquecimento Global: o ilusório HDI

A relação estatística entre nível do Human Development Index - HDI de um município e o seu  nível de potencialidade para Adaptação ao Aquecimento Global, que foi encontrada entre os municípios das regiões Norte e Nordeste do Brasil, não se aplica aos países. Isto porque o nível de dispersão da qualidade da educação é muito mais alto entre países do que entre os municípios do Norte e Nordeste do Brasil.

O HDI leva em consideração apenas o número de anos de escolaridade. Despreza o mais importante, a qualidade. Assim, o HDI apresenta valores superestimados para países com  educação de péssima qualidade. O Brasil é um deles.

O Brasil, que o governo passado chamava "pátria educadora", subiu no nível de HDI. Expandiu o número de anos de escolaridade na população. Mas, a qualidade caiu. Apresentou queda no índice Programme for International Student Assessment  PISA, de 2015, aplicado a amostras de estudantes  de 70 países (35 membros da OECD e 35 outros).

Na área de Ciência os cinco países que apresentaram maiores notas alcançaram uma média de 538 pontos. A média dos países da OCDE foi um pouco mais baixa, 493 pontos, 8% abaixo da média dos cinco de maior nota.  O Brasil ficou com 401 pontos, 25% abaixo, 

Na área de Leitura o desnível foi um pouco menor, apenas 23% abaixo da média dos cinco países de mais alta nota. Mas a importante linguagem, a matemática, foi desastrosa para o Brasil. A média dos cinco países de mais alta nota atingiu 546 pontos. O Brasil ficou com 69% desta média.

Abaixo do Brasil estão poucos países. A média dos países de nota inferior é 3,7% menor em ciências (apenas 5 países). Em leitura a diferença análoga é maior, atinge 8,6% (apenas 10 países). Mas, na mais importante, matemática, cai para 5,1% (apenas 5 países). Ou seja, o Brasil está longe dos de nível mais alto e consistentemente junto aos de nível mais baixo.

É preciso explicar que os países com notas inferiores ao Brasil, tem peculiaridades que explicam as suas notas. Um grupo de habitantes remanescentes de um império destruído pelos invasores espanhóis, com cultura diferenciada em relação aos descendentes dos invasores, tende a ser discriminado. Pior ainda, se ocupa montanhas de relativamente difícil acesso. Constituindo um em cada dois lares, os invadidos puxam para baixo os índices relativos à educação, medidos segundo a métrica dos invasores. Uma ilha cuja principal atividade econômica, desde a invasão européia, foi a monocultura canavieira, baseada, até século e meio atrás, em trabalho escravo, vítima de lutas coloniais e de ditadores cruéis, mais interessados no poder do que no desenvolvimento. Uma ilha onde a educação nunca teve prioridade. Nunca teve oportunidade de um lapso de tempo suficientemente grande de estabilidade para encetar um vigoroso desenvolvimento econômico. Pense, ainda, em países em que as mulheres apresentam baixa participação na força de trabalho. Estes têm as mulheres com nível de educação limitado ao básico, dosado pelas necessidades das tarefas domésticas. Para eles o índice expressa uma medida segundo valores ocidentais, distorcendo os seus valores.

O Brasil é diferente. É um país de valores ocidentais. Passou por um vigoroso processo de industrialização, que em meio século, de 1930 a 1980 e o fez passar de um economia primária à oitava economia industrial do mundo. Mas foi um processo baseado nos princípios da divisão de trabalho taylorista, onde um pequeno grupo bem formado faz o todo, baseado em mão de obra não educada, produzir eficientemente. Este sistema, da produção baseada no ignorância populacional, ruiu com a substituição do paradigma eletromecânico pelo paradigma microeletrônico. Agora o Brasil corre atrás do que devia ter feito há mais de um século atrás. Os indicadores educacionais mostram isto. 

O HDI, levando em consideração o número de anos de escolaridade, sem o mínimo apreço à qualidade, é um indicador que enviesa para  cima a posição de países como o Brasil. E os apresenta, sob este ângulo com uma capacidade de Adaptação ao Aquecimento Global maior do que a real.

O HDI pode ser corrigido para descontar a má qualidade da educação, reduzindo adequadamente o tempo de escolaridade. Isto exigiria que um índe como o PISA fosse aplicado em todos os países da United Nations - UN. Um tal programa encetado pela UN produziria um bom impulso na direção da melhoria da qualidade da educação no mundo.

Referências

CALDERÓN G., Fernando (2007).Países Andinos.Tempos de agitação, tempos de mudança. Sociedade e democracia nos países andinos meridionais.In SORJ, B., and OLIVEIRA, M.D., eds. Sociedade civil e democracia na América Latina: Crise e reinvenção da política[online].Rio de Janeiro:: Centro Edelstein de Pesquisa Social,2007.pp.147-198. ISBN 978-85-9966-223-6. Available from SciELO Books<http://books.scielo.org>.

MOYA Pons, Frank  (Coord.). Historia de la República Dominicana. In: NARANJA Orovio, Consuelo (Dir.)(s.d.). Historia de las Antillas. Vol.II. Santo Domingo: Ediciones Doce Calles. Disponível em: http://reccma.es/libros/historia-republica-dominicana/Historia-Rep-Dominicana.pdf. Acesso em: 10 fev. 2017.

OECD (2016).PISA 2015. Results in Focus. Disponível em: https://www.oecd.org/pisa/pisa-2015-results-in-focus.pdf. Acesso em 10 fev. 2017. 

WORLD Bank Middle East and North Africa Social and Economic Development Group (s.d.). The Status & Progress of Women in the Middle East & North Africa. Disponível em: http://siteresources.worldbank.org/INTMENA/Resources/MENA_Gender_Compendium-2009-1.pdf. Acesso em: 10 fev, 2017. 






 





 


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