sexta-feira, 15 de junho de 2012

Jeremoabo dá passos para a Adaptação ao Aquecimento Global


A mais de 100 km ao Sul da Cachoeira de Paulo Afonso está o município baiano de Jeremoabo. Em pleno sertão, a Oeste do estado de Sergipe. Ou seja, olhando para um mapa político do Brasil, está bem por trás de Sergipe. Para os climatologistas, o clima é As na classificação climática de Köppen-Geiger. Como todo sertão, Jeremoabo é, para os não climatologistas, simplesmente seco.
De lá partiram as expedições militares em destino ao Vaza Barris, que visavam acabar com o sonho da cidade santuário de Canudos, e terminaram por fazê-lo. De lá partiram tanto as derrotadas e como a última, vitoriosa, e, por isto última, que tomou a cidade, inicialmente com milhares de almas, num episódio final descrito por Euclides da Cunha:

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam ruivosamente 5.000 soldados.

Jeremoabo se distingue, também, por lá ter sido, décadas depois, enterrado Corisco, lider de bando cangaceiro que, rivalizando com o de Lampião, aterrorisava o sertão. É uma cidade desconhecida do brasileiro médio de fora do estado da Bahia, mas é vinculada a episódios notáveis das primeiras décadas da vida republicana do Brasil.
Seus típicos habitantes não viram muitas mudanças para melhor através das décadas de Brasil que se passaram: os “cinquenta anos em cinco”, da segunda metade dos anos 50 em que o Brasil deu um salto na direção da industrialização; o “milagre brasileiro”, dos anos 70, em que o Brasil cresceu seu produto por volta de 10% ao ano; a “década perdida” dos anos 80; a celebrada entrada de mau jeito na Globalização, nos anos 90, que o Brasil a terminar por voltar a ter apenas 15% de produto industrial em seu produto nacional. Os camponeses de Jeremoabo continuavam lá, vendo o tempo passar em outro rítmo.

Mas houve uma nítida recente mudança na questão da educação. Pelo menos do ponto de vista quantitativo (A questão qualitativa, um desastre brasileiro, não é particular a Jeremoabo. É um grave problema, mas é brasileiro). Hoje, dos quase 40 mil habitantes do município, mais de 8.000 atendem ao ensino fundamental. E mais de 1.400 frequentam o ensino médio gratuito em escola pública (IBGE, 2012). E muitas famílias camponesas estão hoje com um bom padrão alimentar como resultado de recentes ações de convivência com a seca, que constituem, então, um primeiro estágio de Adaptação ao Aquecimento Global.

Espera-se que a Rio+20 faça prover recursos para a adaptação nas regiões equatoriais a exemplo do que ocorre em Jeremoabo. Estas regiões abrigam áreas semi-áridas e até áridas, que cobrem 3/4 da área do Nordeste brasileiro. Nelas se encontra uma expressiva parcela da população humana carente dos mais básicos recursos, carência alimentada pelo círculo vicioso da pobreza. A necessidade de programas de educação que elevem o piso educacional ao ciclo médio bem feito é uma marca comum destas áreas em todo o mundo. A situação se repete na África, agravada pelo efeito histórico da drenagem de recursos, quer diretamente, pelo pagamento de minérios a preços vis, quer indiretamente, pelos impostos impostos pelos países centrais à importação seus de produtos agrícolas.  Espera-se que a sustentabilidade da Rio+20 seja reconhecida como tendo por pilar a oferta de educação onde hoje ela faz falta, tornando-a, nestes casos, o mais crucial ingrediente da Adaptação ao Aquecimento Global. E que dela resulte o estímulo ao desenho e implementação de medidas para a necessária melhora qualitativa.

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